quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Carência, necessidade ou pobreza encapotada?

Ela falou nisso e eu fiquei a pensar nisso.
Então o que é a carência, a necessidade ou mesmo a pobreza? Será tudo a mesma coisa. Duvido.
Podemos ser carentes e termos imensas coisas, porque a carência nem sempre é material, aliás quando dizemos que estamos carentes, normalmente prcisamos de um abraço, de um mimo.
Já a necessidade pressupõe lago mais urgente. É necessário, mesmo que para o outro seja desnecessário.
Já a pobreza não. Só o nome assusta. A pobreza é aquela condição que dói, que faz de nós menos aos olhos da sociedade, uns párias, uns mendigos. Mas e a pobreza encapotada? Aqueles que necessitam de ajuda, que têm carências mas têm vergonhas? Que foram apanhados na curva sem culpa, levados por uma sociedade consumista.
Nasci no mês de Agosto do ano de 1976, tenho portanto 36 anos. Filha de pais separados a minha mãe sempre teve de trabalhar, batalhar e fazer tudo para me criar sozinha. Chegou a ter mais que um trabalho, mas nunca baixou os braços, nem a cabeça e hoje, quase aos 62 anos, vê-se desempregada, mas olha para trás e se vê uma vida dura vê também uma vida honesta.
Nunca tive marcas, acho que na altura nem se falava tanto assim nelas. Lembro-me dos meus sapatos pretos de verniz e de me sentir o máximo com eles, das minhas socas que me deixavam bolhas nos pés e eu teimava em usar, das minahs galochas de olhos de sapo e de adorar vestidos com enormes laçarotes atrás.
Sempre tive noção que é necessário poupar. Que não se gasta o que não se tem. Que se comparam preços e que os vícios são bons para quem os pode suportar.
Segurança financeira nunca tive, sempre trabalhei assim que pude e orgulho-me em dizer que paguei o meu próprio curso. Nada contra os que estudam sem trabalhar, cursos existem que é impossível conciliar ambos.
Quando me casei a casa estava mobilada. Eu tinha 2 trabalhos e o meu marido trabalhava e estudava. Comprámos as coisas às prestações e ainda hoje fazemos as contas a contar com tudo e mais um par de botas, não esquecendo que as mesmas podem precisar de meias solas, já que temos dois filhos pequenos.
Já passei necessidades, mas nunca tive carências ou pobreza.
Cresci com roupas novas e outras que eram dadas pertencentes à minha prima mais velha. Ainda hoje herdo coisas da minha mãe, velhas sim, mas novas para mim já que é a primeira vez que as uso.
Será que por os meus filhos usarem coisas dadas/emprestadas são necessitados? Não o considero. Ele herda do primo mais velho, algumas coisas de marca, outras não. Sinceramente, preocupa-me se lhe servem e em que condições estão. Ela usa coisas emprestadas da prima emprestada e fica super gira, ela não se importa e eu também não.
Não é fruto da crise, é consequência da forma como fui criada.
O que me preocupa é proporcionar-lhes uma boa educação em casa, na escola, actividades extra curriculares como ginástica e se necessário algum explicador ou algo que enriqueça os seus horizontes. Que eles tenham acesso a bons profissionais e condições de saúde, de alimentação. Que eu e o pai lhes possamos proporcionar um bom lar, com boas recordações e muito amor.
Sim, alguns brinquedos da moda, alguns caprichos da moda, umas idas ao MacDonalds e ao cinema. Mas responsabilidade acima de tudo.
Pobreza não é ter nada e necessitar. Carência não é ter nada e pedir ajuda. Necessidade não é abordar um estranho na rua e pedir-lhe uma moedinha para comer. Pobreza é falar de alto e só se lembrar dos outros no Natal, quando se sai na capa da revista ou a vizinha está a ouvir. Carência é ser casmurro e não entender que existem outras formas de levar o país adiante. Necessidade é não ter coragem de estando no sítio certo, na hora exacta, pegar o touro pelos cornos e chegar-se perto de quem de direito e dizer vamos ter uma conversinha?
Os nossos pais já passaram por muito. Alguns de nós nem se lembram, outros sim. Espero e desejo do fundo do coração que os nossos filhos não venham a passar nunca pelo mesmo.

2 comentários:

Maggie disse...

Ora eu lembro-me dos meus pais viverem apertadinhos e nao fiquei com boas recordaçoes. E tbem me lembro de nao poder ir para a universidade e de ir trabalhar para poder ajudar os meus pais. Nao foi preciso eles pedirem-me, eu mesma percebi a situaçao e avancei, so mais tarde me inscrevi na universidade mas ficou-me um amargo de boca. E lembro-me de ser miuda e de andar na escola particular mas que os meus pais se contorciam todos para poder pagar. Sou mais velha 1 ano e tenho mtas recordaçoes de miuda, recordaçoes de gente da minha rua que vivia bem mal...

Bjos
Maggie

Maggie

soumaiseu.blogs.sapo.pt disse...

Gostei tanto da "prima emprestada"! :-) Quanto às minhas memórias, eu cresci num bairro problemático, onde havia droga, prostituição, má vida, pobreza, miséria... lembro-me dos meus vizinhos cheios de piolhos e com fome, com o ranho no nariz. Eu era olhada de parte, porque era filha única e isso classificava-me automaticamente como a menina do mimo... eu tinha realmente mimo, mas tb tinha muita coisa desagradavel que os outros não conseguiam perceber, porque é muito mais fácil olharmos para o nosso umbigo do que tentar ver pelos olhos dos outros... enfim! Mas valeu a pena. Assim se forjou o que hoje é o meu "eu" e acho que sou uma boa pessoa, contra tudo e contra todos! Hoje não tenho vergonha de nada e orgulho-me de ser como sou!

 

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